O XARÁ E EU (História Real)
Outro dia o diretor procurou-me:
-Gilberto, há um pai querendo falar com você. O filho chegou fazendo queixas em casa.
Senti aquele calafrio e deparei-me com um pai visivelmente enfurecido que perguntou:
- É o professor Gilberto?
Na hora fiquei com crise de identidade. "Sim, sou eu mesmo. O que está havendo?"
- Vim aqui saber o que está havendo com meu filho!"
Disse que deveria estar havendo um engano. Mandaram, então, chamar o aluno queixoso que disse de longe: "Não é esse aí não. É o outro Gilberto."
Às vezes ocorre o contrário. Um pai que vem à minha procura realmente.
Na verdade, são muitas as semelhanças que tenho com esse colega. Quando conto, as pessoas custam a crer. Morávamos bem próximos um ao outro, quase de frente. Ele tem um longo passado evangélico e eu também. Sua primeira esposa chama-se Maria e a minha também é Maria. A esposa dele confeitava bolos e a minha também é expert nisso. Minha filha chama-se Débora e a dele tem esse mesmo nome. Algumas pessoas me procuravam na casa dele e outros o procuravam na minha. Minha casa tinha o número 22 e a dele não. Mas mudou-se para uma outra bem próxima que ficava ao lado de uma casa de número 22, onde morava um outro Gilberto.
Quantas vezes carteiros e entregadores se enganaram! Certa vez foram deixar na casa dele umas latas de tinta que eu havia comprado. Em compensação, doutra feita, entregaram aqui em casa uma feira feita por ele.
Nossas semelhanças vão além. Além de ensinarmos na mesma escola e no mesmo turno, somos professores de português e concluímos o curso de Letras. Os alunos fazem distinção entre nós chamando a um de Gilberto Gordo e ao outro de Gilberto Magro.
Uma vez um amigo veio a Santa Cruz, à minha procura. Perguntou a um mototaxista se ele sabia onde morava Gilberto, que é professor e crente, e o rapaz não teve dúvida: sabia onde moravam os pais dele!
Um irmão do xará recepcionou os dois e apontou com o braço para a casa dele, que ficava na mesma direção da minha. Resumindo, acabaram chegando em minha residência. Quando Tamires disse que havia conhecido meu pai e meu irmão fiquei assustado, pois desde meu nascimento que estou sem saber quem seja meu pai ao certo! De uma coisa tenho certeza: ele não mora em Santa Cruz.
Ensino em duas escolas e na outra vez por outra chegam telefonemas de ex-alunas do xará que falam carinhosamente comigo querendo falar com ele.
Quando o primeiro casamento dele, infelizmente, entrou em crise, houve alguns graves mal-entendidos. Coitada da minha Maria! Coitado de mim também. Algumas alunas depois me confidenciaram a pena que sentiam de mim. Uma delas disse-me:
- Professor, eu tava com a maior dó do senhor. A gente via o senhor falando de amor nas aulas e pensava que era porque estava triste, com problemas no casamento.
Um amigo evangélico escandalizou-se quando soube que "eu" estava me separando. "Que absurdo" disse ele. O Gilberto, um cara tão entendido, tão consciente, está deixando a mulher? Não sabe ele que isso é pecado?"
Em compensação, uma mulher desquitada, de boas condições, abordou-me na academia, toda dengosa, querendo saber se era verdade que eu estava me separando da mulher.
O xará (que na verdade chama-se Manoel Gilberto) casou-se pela segunda vez com uma inteligente mulher que também se chama Maria!
Quando minha esposa acidentou-se houve uma certa confusão entre os que a socorreram desmaiada:
- É a mulher de Gilberto professor!
- É não. Gilberto separou-se da mulher.
- Separou-se, sim, mas já está com outra!
Em suma, ambos somos Gilberto, temos filha com nome de Débora, esposas com nome de Maria, ensinamos na mesma escola, no mesmo turno, ambos fizemos o curso de Letras e , pasmem vocês, atualmente ele é presidente do conselho escolar e eu também, pois ambos ensinamos em duas escolas!
A sorte é que o xará é muito gente boa. Mas já imaginaram se alguém decidisse matá-lo e pegasse o Gilberto errado?
(GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS)

Do Melhor
Linkk
del.icio.us
Não é possível distinguir pelo tamanho da orelha ?
Nelson Silva Ricardo
29-07-2007 - 17:28:26 GMT 1
Ótimo texto!
Me fez lembrar que um dia eu estava na
porta de um barzinho tomando uma cerveja e nessa época usava barba. Chegou um camarada e me disse: "caramba! Você se parece muito com o chefe de polícia!" Na mesma hora
paguei a conta, "ralei" pra casa e "derrubei" a barba toda...rsrs
Valeu, xará!
ACONTECE...
29-07-2007 - 17:46:43 GMT 1
Mas, afinal, por que se diz "xará" para alguem que tem o mesmo nome? Li todo o texto na expectativa de descobrir e (pasme!) não encontrei nada. Parabéns pelas crônicas. Por que não publica num jornal?
Claudio Dantas
22-06-2008 - 14:02:18 GMT 1
Realmente,é muita concidência. vocês parecem a mesma pessoa.
Você não deve achar nada agradável ser distinguido do outro através do "gordo'.
Que nem gordo você é.
JOÃO MARIA
10-12-2008 - 15:42:49 GMT 1
Gostei do texto e o bom é q conheço o outro Gilberto. Lembra q foi vc q ajeitou com ele pra que eu pudesse desenvolver a minha pesquisa na sala de aula dele. Realmente, muita coincidencia. Mas, afinal, qual a resposta p a indagação q serviu de título p esta crônica?
Fátima Sena
08-11-2009 - 01:36:48 GMT 1