TRANSFORMADO PELOS LIVROS (Gilberto Cardoso dos Santos)
Não sei quando, precisamente, aprendi a decodificar as letras, só sei que não me parece ter sido fácil.
Antes disso, em tenra idade, tive a oportunidade de entrar em contato com os textos escritos através dos olhos e da boca de uma vizinha, que lia, para alguns meninos e adultos embevecidos, folhetos de cordel e contava histórias de “trancoso”.
Não havendo passado pelo maternal ou pré, tornei-me aluno de uma turma multisseriada. Dessa fase recordo, apenas, do risco vertical grosso e quase reto que Dona Ném fazia a fim de dividir o quadro em duas ou três partes.
Depois disso, arranjaram-me uma vizinha cujo nome não recordo, que muito esquentou seus neurônios tentando familiarizar-nos - a mim e a mais uns 4 colegas - com as letras. Com ela, mui vagarosamente, comecei a “desasnar”.
Minha infância passou-se, praticamente, entre as paredes do bar de meu irmão. Ali, no intervalo entre a vinda de um freguês e outro, comecei a folhear gibis, atraído pelas figuras coloridas. Quando deparava-me com o “que” nos balõezinhos do Pato Donald, eu lia “qüé”, pensando tratar-se da reprodução gráfica do som emitido pelos patos!
Das revistinhas, parti para os livros existentes numa biblioteca local que, obrigatoriamente, deveriam conter muitas figuras, caso contrário não os leria. De livros ilustrados, passei a livros sem imagens. De livros “magros”, passei a livros grossos e, assim, fiz do caminho à biblioteca minha estrada para o paraíso.
Por amor ao meu brinquedo preferido – a leitura – acabava sendo um balconista desatento e tinha, também, de suportar o preconceito da família e vizinhos que pareciam dizer em uníssono: “Esse menino vai acabar endoidecendo, de tanto ler!”
Oriundo de uma família destroçada, avessa à religião e à leitura, tornei-me católico fervoroso a partir, principalmente, da leitura do livro “Os Santos que Abalaram o Mundo”,de René Fülöp Miller. Dediquei-me à degustação de obras religiosas e passei muito tempo batalhando para tornar-me um “São Gilberto”. Passei, então, a ver nos livros ditos sagrados algo além de uma mera fonte de prazer.
Foram os livros que me tornaram, um ovo-lacto-vegetariano e praticante de yoga, e foram eles, de igual modo, que me levaram a mudar de religião. Ainda na adolescência, deixei de ser católico ( isso também tinha a ver com certos livros!) e passei a fazer parte de uma igreja que tem como guia, além da Bíblia, uma falecida escritora norte-americana tida como profetisa. Por causa de seus ensinamentos passei uns quinze ou mais anos sem ler sequer um romance! Ela ensina, por exemplo, que “Alimentando o amor de mera distração, a leitura de ficção cria um desgosto pelos deveres práticos da vida. Por meio de seu poder estimulante e intoxicador, é freqüente causa de enfermidades mentais e físicas. Muito desgraçado e negligenciado lar, muito inválido por toda a existência, muito interno de asilo de alienados, chegou a esse estado mediante o hábito da leitura de romances” (Livro A Ciência do Bom Viver”, pág. 446). Imaginem vocês como foi difícil para mim prosseguir com êxito o curso de Letras, uma vez que não queria “pecar” lendo romances! Todavia, se não os lia agora, já os lera antes e, desse modo, atravessei com êxito aquele período difícil (alguém dirá, não sem uma certa razão: “Que fanatismo!”). Apesar disso, minha trajetória como leitor continuava, pois dediquei-me à leitura da Bíblia e dos livros escritos por ela.
Foram os livros, também, que me levaram a olhar para a religião com outros olhos!
Percebe-se, portanto, que os livros, para bem e para mal, exerceram um papel transformador em minha vida (parece-me, digo-o com vergonha, que sempre mantive-me numa postura de subserviência diante deles...).
Quase tudo que fui e que sou, devo-o à leitura: meu sucesso como aluno; o fato de passar no primeiro vestibular que fiz – mesmo estudando a vida inteira em escola pública - a escolha do curso de letras e o meu relativo sucesso como professor; devo-o às muitas horas gastas diante dos livros. Por isso que, em todas as aulas, como numa espécie de lavagem cerebral, não me canso de repetir para meus alunos: “Leiam, leiam, leiam... os livros lhes abrirão novos horizontes!”.

Do Melhor
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Caro prof.Gilberto. Lendo sua postagem, lembrei-me também de minhas experiências com os livros. Meu interêsse por eles começou em um livro de Mark Twain. Estava convalescendo de uma doença(uma das muitas)e meu irmão me trouxe um ensebado exemplar das Aventuras de Tom Sawyer. Não fosse uma edição en français, teria adorado o "presente grego". A vontade de fazer algo para quebrar a monotonia das longas horas na cama era tanta que pedi um dicionário à minha irmã. E assim, consegui ainda "ler" umas 50 páginas. Fiquei mais familiarizado com o dicionário que o livro. Minha irmã, diante do silêncio que fazia nessas horas resolveu o problema presenteando-me com um outro livro, desta vez em Português. E comecei minha carreira de leitor serial. Era um de Maurice Leblanc, cujo personagem - Arsène Lupin (o ladrão de casaca) - era um ardiloso personagem, metido em suas tramas e romances. Caiu como uma luva para um adolescente em seus 13 anos de idade. Li-os todos que encontrei - uns 7 livros.
Depois, li a coleção do José de Alencar de minha irmã, e fui devorando os livros - por autor. Uma mania que me acompanhou durante umas 2 décadas. Gostei do seu texto. Deve ser também um bom professor. Sucesso e abraços . Nelson G.
Nelson G.
29-07-2007 - 02:57:49 GMT 1