Administra o teu Blog

Cria o teu Blog Já! Fácil e Grátis

Gravatar

EM BUSCA DO CÉU 

     Indubitavelmente, não existe nenhum ponto geográfico em todo esse vasto universo mais interessante que o céu, onde alguns poucos escolhidos e interessados adentrarão para o gozo e descanso eternos. Mesmo que não fosse o melhor de todos, mesmo que fosse uma espécie de Saara ou favela da Rocinha, em face da opção de ir para o inferno – o pior lugar existente no Cosmos para onde irão todos os que forem impedidos de participar das delícias paradisíacas – valeria a pena esforçar-se e dispor-se a pagar qualquer preço para ali estar. É precisamente por pensar assim que, algumas pessoas, normalmente avarentas para outros empreendimentos, se dispõem a entregar parte do que adquirem com o suor de seus rostos mês a mês àqueles que lhes falam desse país magnífico e lhes asseguram um lugarzinho ali. 

Um companheiro de malhação, pobremente vestido e com aquele olhar de submissão que caracteriza pessoas mais humildes, aproveitando a ocasião em que estávamos só eu e ele na academia, ergueu o pé e, para minha surpresa, mostrou-me a boca enorme que havia no solado de seu tênis. Disse-me que pretendia comprar um outro calçado para exercícios, mas que não iria poder fazê-lo agora por estar preparando-se para a Crisma. Aquilo surprendeu-me e pedi-lhe detalhes do que dizia-me. 

Em sua casa havia seis pessoas. O pai e a mãe não tinham emprego e ele e seus irmãos também estavam desempregados. Viviam, exclusivamente, do que recebiam do Fome-Zero e das ajudas feitas por um avô aposentado. Sendo católico fiel, foi-lhe ensinado que um dos passos para a salvação está em participar do sacramento da Crisma. Precisaria, portanto, segurar cada trocado que lhe chegasse às mãos a fim de poder comprar a camiseta, a calça social branca, o sapato, as meias brancas e pagar a taxa de quinze reais cobrada pelo padre. Disse-me que a camiseta branca, vendida normalmente nas lojas a menos de dez reais, custaria quinze e seria fornecida pela paróquia. Quanto à taxa extra exigida pelo ministrante das bênçãos, não soube dizer-me qual a finalidade. Também falou-me de dois reais que lhe foram exigidos para participar de uns jogos  os quais, em seu entendimento, lhe permitiriam comer alguma coisa de graça no intervalo das brincadeiras. 

Aquele jovem simpático está resovido a morar no céu. Sacrifica-se agora pelo gozo que lhe está proposto. Vale a pena, no entendimento dele, resistir às investidas de jovens sedutoras a fim de partilhar de delícias ao lado do polígamo Davi, a quem Deus, segundo Natã, ofertou as mulheres de seu senhor Saul. Compensa viver ao lado do bem-aventurado Salomão, possuidor de setecentas mulheres. Vale a pena, sim, viver pacificamente aqui, não praticando atos de vingança, a fim de estar ao lado daquele que matou Golias ou do manso Moisés que, em nome de Deus, destruiu populações inteiras enquanto marchava com o povo escolhido para a Terra Prometida. Que é o terreno que se doa para construção de uma igreja em comparação com os jardins celestiais? Vale a pena, sim, ajuntar dinheiro para a Crisma. 

Conforme ensina São Paulo em um dos livros que lhe são atribuídos a salvação é inteiramente de graça. Todavia, à semelhança de alguém que espontâneamente acrescenta mais algum valor a algo que julga estar adquirindo com pouco custo de sua parte, os fiéis graciosamente dispõem seus bens aos pés dos ministros. Além disso, na mesma Bíblia em que se fala na gratuidade do processo salvífico adverte-se que quem não devolve o dízimo é ladrão e que os ladrões não herdarão o Reino dos Céus. 

As religiões podem não levar ao céu após a morte, conforme apregoam, mas trazem conforto, esperança e alegria ao coração dos fiéis dizimistas e ofertantes. Para viver na esperança de estar um dia na glória com o patriarca Noé –aquele que se embriagou e amaldiçoou um dos netos por ser filho do homem que viu a sua nudez – vale a pena, sim, abster-se do álcool, do fumo e das drogas em geral. Deixemos aquele jovem, em sua simplicidade, com seu tênis rasgado, sonhando com o dia em que poderá andar descalço pisando em ruas de ouro!